Funk do 'petista disfarçado', hit da direita no Brasil, tem base popularizada na União Soviética; conheça história

  • 03/11/2026
(Foto: Reprodução)
Funk do 'petista disfarçado' tem base popularizada na União Soviética O funk do "quem ficar parado é petista disfarçado", que embalou atos de apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL) na eleição de 2026, usa uma melodia com mais de 160 anos de história. É o tema do videogame Tetris, que nasceu de uma canção popular russa, foi gravado por um coro do Exército Soviético e chegou ao funk carioca há mais de duas décadas. Oficialmente chamada "Solinho do Fora PT", a música viralizou depois que Lucas Pavanato e Eduarda Campopiano (PL), eleitos deputado federal e deputada estadual por São Paulo, comemoraram a vitória dançando ao som dela. Depois, passou a tocar nos "bloquinhos do 22" e em comícios do então candidato à Presidência. A melodia que acompanha versos contra a esquerda surgiu com uma letra que exalta o povo russo na década de 1860 e, após a revolução comunista de 1917, se tornou popular na URSS e foi cantada pelo coro do exército soviético. O caminho da melodia Década de 1860: surge na Rússia a partir do poema "Korobeiniki", de Nikolai Nekrasov, e vira canção popular Década de 1980: entra no repertório do coro do Exército Soviético, que grava a canção em show em Londres 1989: vira o tema do Tetris na versão para Game Boy, com arranjo do japonês Hirokazu Tanaka Início dos anos 2000: a versão do Tetris chega ao funk carioca em montagens, e aparece em "Jonathan da Nova Geração", da Furacão 2000 2026: a mesma melodia embala o funk do "petista disfarçado" Canção russa do século 19 A melodia tem raiz antes mesmo da revolução comunista que deu origem à União Soviética. Conhecida como "Korobeiniki" ("mascates", em russo), a composição é baseada em um poema de Nikolai Nekrasov publicado em 1861, durante o Império Russo. Nekrasov era conhecido por retratar a vida do povo russo. Os versos contam a história de um vendedor ambulante que se encontra com uma jovem. Com o passar do tempo, o poema ganhou uma versão musical e se popularizou como canção folclórica russa. Capa da canção folclórica 'Korobeiniki'. Reprodução/Wikimedia Commons A gravação do coro soviético A canção entrou no repertório de grupos musicais do Exército Soviético, conhecidos no Ocidente como "Coro do Exército Vermelho". Um desses conjuntos a gravou ao vivo no Royal Albert Hall, em Londres, em março de 1988. O mesmo disco traz o hino britânico, árias de ópera e até "Yesterday", dos Beatles. Não se trata, porém, de uma música militar ou revolucionária. Nos anos 1930, um musicólogo soviético chegou a lamentar que "Korobeiniki", cujo herói é um comerciante, fosse mais popular que as canções revolucionárias, segundo o jornal americano "The Boston Globe". Do Tetris ao Game Boy O Tetris foi criado em 1984 por Alexey Pajitnov, pesquisador da Academia de Ciências da União Soviética, em Moscou. A primeira versão do jogo, porém, não tinha som. "Korobeiniki" virou o tema do Tetris em 1989, quando o compositor japonês Hirokazu Tanaka fez o arranjo para a versão do Game Boy, da Nintendo. Foi essa versão que ganhou o mundo. Ou seja, a melodia que virou hit da direita brasileira ficou famosa graças a um jogo criado na União Soviética, ainda que no arranjo de um compositor japonês. Furacão 2000. Reprodução Do funk carioca aos 'bloquinhos do 22' Funk do 'petista disfarçado', tocado em comícios da direita, tem base popularizada na União Soviética. Reprodução A melodia desembarcou no funk muito antes da campanha. Uma montagem musical com a melodia do Tetris era popular nos bailes cariocas. No início dos anos 2000, a Furacão 2000 inseriu a melodia "Jonathan da Nova Geração", cantada por Jonathan Costa, filho dos donos da equipe, quando ele tinha 7 anos. A faixa combinava o tema do Tetris do Game Boy com o Volt Mix, batida criada em 1988 pelo DJ americano Battery Brain e muito usada no funk carioca dos anos 1990. Reaproveitar bases e trechos de músicas conhecidas é uma marca do gênero. Em 2026, "Solinho do Fora PT" repetiu a combinação, com novos versos dirigidos ao PT e à esquerda. Como o g1 mostrou, o funk virou trilha das campanhas da direita em 2026. Jingles no ritmo, com apoio a Flávio e críticas ao PT, embalaram atos e vídeos de nomes como Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Eduarda Campopiano. No domingo do segundo turno, seis das 50 músicas mais ouvidas no país no Spotify eram desse tipo. O uso foi alvo de críticas por contradição, já que políticos conservadores costumam associar os bailes funk à "narcocultura". Pavanato, que foi relator da CPI dos Pancadões na Câmara Municipal de São Paulo, diz que "o problema com o funk, por óbvio, é a letra, não o ritmo". A estratégia não atraiu grandes nomes do gênero: MCs como Hariel e PH apoiaram Lula, e outros ficaram neutros.

FONTE: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/noticia/2026/11/03/funk-do-petista-disfarcado-hit-da-direita-no-brasil-tem-base-popularizada-na-uniao-sovietica-conheca-historia.ghtml


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