Filme sobre o Canecão foca algumas dentre as muitas emoções vividas por artistas na lendária casa de shows

  • 05/06/2026
(Foto: Reprodução)
Imagem do filme 'Canecão – Tantas emoções', dirigido e roteirizado por Bruno Levinson Reprodução / Vídeo ♫ CRÍTICA DE DOCUMENTÁRIO MUSICAL Título: Canecão – Tantas emoções Direção e roteiro: Bruno Levinson Cotação: ★ ★ ★ 1/2 ♬ Parte expressiva da história da música brasileira foi escrita no Canecão de 9 maio de 1969 – dia em que uma incendiária Maysa (1936 – 1977) inaugurou como casa de shows bem produzidos a então cervejaria aberta em 1967 na zona sul da cidade do Rio de Janeiro (RJ) – a 17 outubro de 2010, dia em que Bibi Ferreira (1922 – 2019) fez o último espetáculo da casa, então já envolta em aura mítica. Atração da Mostra Brasil da 18ª edição do In-Edit Brasil – Festival Internacional do Documentário Musical, programada para acontecer em São Paulo (SP) de 17 a 28 de junho, o filme “Canecão – Tantas emoções” reúne histórias dessa casa prevista para ser reaberta em 2027 como espaço cultural. Talvez pelas preferências musicais de Bruno Levinson, diretor e roteirista do documentário viabilizado pela produtora Raccord, o filme enfatiza a tomada do Canecão pela geração pop dos anos 1980 a partir da estreia em 198d o show “Radioatividade”, da banda Blitz. A maioria dos cantores entrevistados – Bruno Gouveia, Evandro Mesquita, Fernanda Abreu, Leo Jaime, Lobão, Paulo Ricardo, Ritchie e Roberto Frejat, entre outros nomes – é dessa geração pop, opção fora de sintonia com o fato de o Canecão ter sido, sobretudo nos anos 1970, “o templo sagrado da MPB”, como resume Lobão. Mesmo focado em algumas das tantas emoções do título, o filme flui bem porque, gerações e preferências à parte, o importante é que todo mundo viveu emoções no Canecão. Não somente no palco, como na plateia, como ressalta Zélia Duncan, que lembra a noite em que foi avisada pela empresária Beth Araújo de que o Canecão havia acabado de pôr o letreiro que promovia o primeiro show da cantora na casa. Claro que Zélia cumpriu o ritual dos artistas debutantes na casa e foi para a porta do Canecão tirar foto à frente do ansiado letreiro. Roberto Carlos lembra no filme, em depoimento emocionado, a importância que o Canecão teve na carreira do cantor a partir de 1970 Reprodução / Vídeo “O Canecão não era só um casa de shows. Era o lugar onde todo mundo queria estar”, sentencia a empresária Marilena Gondim, um dos poucos entrevistados que quebra a corrente romântica de depoimentos sobre a casa. “Não era fácil trabalhar no Canecão. Era tudo muito informal. Apesar de pior, o Canecão era melhor”, contemporiza Gondim. Representante da realeza da música brasileira que dominou o Canecão nos anos 1970, Roberto Carlos – cujo primeiro grande show, “Roberto Carlos a 200 km por hora!”, estreou na casa em 3 de setembro de 1970 – dá depoimento que valoriza o documentário. “O Canecão foi um marco importantíssimo na minha vida porque mostrou para o público e para a crítica que eu sabia fazer mais do que fazia na Jovem Guarda”, contextualiza Roberto, ressaltando a importância de Luís Carlos Miele (1938 – 2015) e Ronaldo Bôscoli (1928 – 1994) como produtores do espetáculo em que o artista deixou de ser visto como “cantor de iê-iê-iê”, expressão usada pelo próprio Roberto Carlos no filme. Além de artistas, Bruno Levinson entrevista funcionários da casa, como garçonetes, o assessor de imprensa Luiz Menna Barreto e o produtor artístico Jerson Alvim, falecido em 2025 aos 83 anos. Alvim teve atuação decisiva na história do Canecão como mediador entre os interesses da casa e as reivindicações dos artistas e empresários. É ótimo o causo contado por ele sobre o breve impasse entre Chico Buarque e Tom Jobim (1927 – 1994) em torno de datas de shows. O toque de emoção do roteiro fica por conta do reencontro de Elymar Santos com a jornalista Léa Penteado, assessora de imprensa cujo trabalho foi fundamental para tornar bem-sucedido – tanto artisticamente quanto economicamente – o sonho do então desconhecido cantor de se apresentar no Canecão. Enquanto pega Elymar na casa do artista na Ilha do Governador e o conduz de carro até o Canecão, o diretor Bruno Levinson ouve o cantor recontar a saga de ter empenhado apartamento e carro para alugar o Canecão por uma noite, em 12 de novembro de 1985, em ação ousada que deu certo e rendeu ao cantor o convite, feito durante a ousada apresentação, para fazer outros shows na casa, agora sem precisar alugar o espaço. Enfim, entre histórias e lendas, o documentário de Levinson lembra que o Canecão abriu as portas para os bailes da pesada que reuniram jovens multidões nos anos 1970, no apogeu do movimento Black Rio. Há também takes dedicados ao afamado show feito no Canecão em 1987 pela banda britânica Echo & The Bunnymen. Em contrapartida, o roteiro omite a chegada do sertanejo à casa em 1991, com apresentação da dupla Chitãozinho & Xororó, e ignora shows emblemáticos feitos pelas cantoras Elis Regina (1945 – 1982), Gal Costa (1945 – 2022) e Maria Bethânia no Canecão, com a ressalva de que há menções de depoentes às antológicas temporadas dos shows “Brasileiro, profissão: esperança” (1974) – espetáculo que juntou a cantora Clara Nunes (1942 – 1983) e o ator Paulo Gracindo (1911 – 1995) em torno da obra de Antonio Maria (1921 – 1964) e Dolores Duran (1930 – 1959) – e “Chico Buarque & Maria Bethânia” (1975). Enfim, as emoções foram tantas que não caberiam nos 87 minutos do documentário. Dentro do recorte mais pop oferecido pelo diretor e roteirista Bruno Levinson, o filme “Canecão – Tantas emoções” cumpre a função de ressaltar a magia que envolvia uma casa que, como sentenciou Ronaldo Bôscoli, escreveu parte da história da música brasileira. Elymar Santos reconta para o diretor Bruno Levinson a saga de ter alugado o Canecão por uma noite em novembro de 1985 Reprodução / Vídeo

FONTE: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2026/06/05/filme-sobre-o-canecao-foca-algumas-dentre-as-muitas-emocoes-vividas-por-artistas-na-lendaria-casa-de-shows.ghtml


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